Lê-me | O Velho e o Mar

08 outubro 2017


Comprei “O Velho e o Mar” numa feira em segunda mão, movida pelo fascínio recente pelos ares marítimos e pelas repetidas recomendações de um amigo devorador de “bons livros” - seja lá o que for um bom livro, mas isso já é discussão para outro dia.

Foi a minha estreia em Hemingway, e por isso comecei a ler com aquela expectativa deliciosa de quem se senta no cinema sem ter assistido ao trailer.
Rapidamente percebi que aquele livro não tinha nada do que me costuma agradar na leitura: a linguagem é básica e pouco trabalhada, as descrições dos espaços e das pessoas que vivem naquelas páginas não são densas e detalhadas como tanto gosto, as personagens não têm diálogos longos que nos façam perder em reflexões, e não há momentos de cortar a respiração nem tampouco algum romance ou mistério que nos prenda à leitura até na fila do supermercado.
A acrescentar a tudo isto, valeu-lhe o azar de ser lido logo após o “Deus das Pequenas Coisas”, grandioso na riqueza das palavras, da construção de metáforas, na complexidade das personagens e dos sentimentos que experimentam e nos fazem experimentar.
Na maior das sinceridades, o “Velho e o Mar” é um livro cansado. E que cansa.
Ainda assim, não consegui parar até ao final. Li-o em cerca de 5h, a reclamar o tempo todo, mas sem sequer ponderar deixá-lo de lado, junto com os outros livros que não mereceram uma leitura até ao final.
Há muitas coisas que o livro não tem, como disse, muitas coisas que para mim costumam ser a receita para uma leitura a meu gosto, mas há uma coisa que o Hemingway fez de forma tão subtil e bem conseguida, que só me apercebi assim que fechei a última página: o segredo deste livro, e a razão pela qual eu o li até ao final, é o velho. A empatia que essa personagem acaba por passar de forma quase imperceptível desde as primeiras até à última página é de tal forma construída no leitor, que é impossível deixar a leitura a meio sem descobrir se, afinal de contas, ele pescou ou não o peixe gigante.
O livro é tão só isto: um velho a pescar. São cento e poucas páginas de um velho a lançar a cana de pesca ao mar, esperando pescar um peixe com um tamanho inimaginável, para quebrar a corrente de azar que o persegue e perpetua a miséria em que vive. Mas no fundo, à medida que acompanhamos o velho na sua jornada, percebemos que não é só isso. É a luta contra a imposição do tempo sobre o corpo e a mente; o fazer frente à descrença dos outros face à nossa fé em relação a algo; uma ode à persistência, à coragem e à capacidade de superar as limitações que nos impomos e nos impõem. No fundo, o livro é todo sobre a máxima de que somos do tamanho da nossa crença em algo, e do quanto lutamos para o alcançar.
Não vos vou dizer, como é óbvio, se o velho venceu. Terão de se aborrecer e maldizer metade do livro para chegar à resposta, mas às vezes é importante ter presente que há várias formas de ganhar.
Eu ganhei alguma coisa em ter lido este livro. Não sei bem precisar o quê, mas valeu a paciência e a crença que no final haveria algo bonito a descobrir. E não é que havia mesmo?


De 1 a 10 para mim é um 8

Daniela.
Vê-me | Ilustrações do livro











(Todas as imagens foram retiradas daqui e o header daqui)


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