À descoberta da escrita | 5 exercícios para soltar as palavras

19 novembro 2017

Embora não seja tão recente quanto isso, a escrita criativa tem atraído não só aspirantes a escritores, mas também bloggers, copy writers, e todos aqueles que, de uma forma ou outra, fazem da escrita uma parte importante da sua vida. Mas afinal, o que é a escrita criativa? Pode aprender-se a escrever? Fiquem com uma reflexão sobre o tema, seguida de 5 técnicas para soltar os músculos das palavras!

João de Mancelos, professor de escrita criativa na Universidade Católica de Viseu, responde a esta questão no sentido inverso - o que não é a escrita criativa?

  • não visa transmitir receitas, mas sim técnicas;
  • não institui regras, mas antes incentiva à experimentação;
  • não promete êxito comercial, mas procura a qualidade, através da técnica, do trabalho árduo, da disciplina, da leitura (...)
Por muito que variem as definições em torno da expressão, todas elas partem de uma ideia comum: através de um conjunto de técnicas de treino e experimentação, é possível dar um empurrãozinho à criatividade, neste caso escrita, de forma a que, à semelhança do que acontece com o corpo quando se pratica exercício, também a mente seja capaz de se tornar cada vez mais flexível e fluída no jogo das palavras.

A escrita, como as Artes no geral, vem quase sempre à boleia daquilo que chamamos de “dom”. Ao contrário de outras atividades de igual importância, seja no desporto, na ciência, ou em qualquer outra área cuja prática é o caminho indicado para chegar ao sucesso, no caso da escrita é a vocação e o talento que tomam a dianteira nos discursos, desvalorizando-se o árduo trabalho que muitas vezes está associado à prática de escrever.
Acontece que a escrita criativa vem quebrar esta visão, e o que para muitos pode representar uma vitória mal vista do lado comercial da coisa, insultando escritores de renome que nunca precisaram de técnicas de brainstorming, free writing ou outros estrangeirismos que tais para escrever obras intemporais, para outros é uma forma de abrir as portas a uma visão mais justa daquilo que é o esforço e a dedicação de quem escreve.

Assumir um posicionamento de “branco ou preto” nesta discussão parece-me sempre uma atitude pouco sensata, até porque implica pensar em questões complexas para as quais acredito que nenhum de nós encontra resposta:
Uma pessoa que escreve um livro? Então aquela participante do reality show que até publicou um livro sobre a experiência, é escritora? E o Eça de Queirós, divide com ela o estatuto? Terá de ter publicada uma extensa obra? Então e a Harper Lee e o seu reportório pequeno em número mas grandioso em qualidade? Será isso, a qualidade? A quem cabe o direito de julgar uma obra como boa? Tudo isto para mostrar que esta discussão tem pano para mangas e exige uma postura de abertura a vários argumentos que não são tão lineares quanto isso.

Ainda assim, eis a forma como aos meus olhos, isto faz sentido: nem todos vamos ser escritores conceituados depois de praticarmos atividades de escrita, mas qualquer um de nós pode ser aquilo que eu própria me sinto,
A escrita criativa entra aqui enquanto pista de descolagem para a descoberta, e por isso decidi partilhar um pouco da minha própria experiência enquanto cientista louca que faz experiências amadoras com tubos de ensaio de palavras.







Longe vão os tempos em que mantinha um diário onde desabafava sobre amores e desamores, mas este diário de bordo não tem essa intenção. Trata-se de um caderno que podem (e devem) transportar convosco para todo o lado, onde tomam notas, colam recortes, desenham rabiscos...enfim, tudo aquilo que vos vier ao pensamento e sentirem necessidade de expressar. Ao meu, chamo-lhe “caderno dos pensamentos com pressa” e são muitas as opções de escolha para começarem o vosso. Podem reutilizar cadernos antigos que tenham em casa, ou então comprar um que personifique exatamente aquilo que procuram. No palavra-padrão temos alguns modelos ideais para o efeito, como podem ver aqui, mas iremos em breve apostar em muitos mais! Fiquem atentos!


O meu atual "caderno dos pensamentos com pressa" 


Um cheirinho dos antigos. 










Uma das atividades que mais me acalma e me convida à criatividade é a arte dos recortes. Um dos exercícios que mais gosto passa por recortar palavras soltas, espalhá-las sobre uma mesa e construir um poema. Não importa que faça grande sentido, a intenção aqui é “saborear” a ligação das palavras umas com as outras, brincar com os sons que produzem quando as lemos e deixar aberta a porta de sensações a que nos convidam.





Para quem anda em transportes públicos no dia-a-dia, este exercício é ótimo! Basta procurarem uma pessoa que vos chame a atenção na rua, num café ou até no metro e darem asas à imaginação para pensarem nas histórias que a envolvem. De onde vem, para onde vai, qual o seu maior medo ou qual a memória favorita de infância são apenas algumas ideias por onde podem começar.


Usar recortes de pessoas de revistas também é uma opção engraçada.






Mais uma técnica simples e eficaz: peguem num livro à escolha, procurem ler uns uns excertos, e reescrevam-nos nas vossas próprias palavras. É um exercício bem engraçado que ilustra na perfeição aquilo que é a escrita - uma posição, um olhar, uma visão distinta de pessoa para pessoa sobre o mesmo tema. Se quiserem uma alternativa, peguem em algo que já haviam escrito antes e reescrevam-se a vocês mesmos, mudem a roupa às vossas próprias palavras e aventurem-se a ver no que resulta!





Por fim, algo que parece mais aborrecido mas que acaba por ser uma técnica útil e divertida: num dicionário, selecionem um conjunto de palavras que não conheçam e procurem juntá-las num texto, de acordo com a sonoridade e a sensação que vos transmitem. No final, vejam o significado das palavras que escolheram e divirtam-se com a trapalhada que fizeram!

E pronto, existem muitos mais exercícios para brincarem com as palavras e que são ideais para alturas de desbloqueio! Estes são apenas alguns dos meus favoritos, que aconselho vivamente a porem em prática!

 Espero que tenham gostado e boas experiências, palavreiros!


8 comentários:

  1. Muito bom! Como pessoa que escreve desde que aprendeu a fazê-lo, que vê a criatividade como ferramenta essencial da sua vida e do seu trabalho e que, por acaso, até editou dois livros infantis (não me considerando escritora, porque lá está... um tema que pode ser bastante discutido) considero estes exercícios muito úteis! Sou totalmente a favor do apelo à criatividade e da exposição de ferramentas para o fazer 💗 Obrigado pela partilha! Já tenho o meu caderninho de "brainstorm" mas estou muito inclinada para tentar os recortes. Beijinho e continuação de bom trabalho 😊

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    1. Obrigada pelas palavras, Joana! :) Ficamos contentes por saber que alguém para quem a escrita é tão importante se identifica com esta nossa visão: a escrita deve ser, antes de mais, uma prática que fazemos pelo gosto de descobrir e ir mais além nos limites da nossa imaginação, e não faltam técnicas engraçadas para nos lançarmos nessa aventura :D

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  2. Gostei de ler e sempre deu para aprender qualquer coisa. Também gostei muito das fotos que acompanham o texto! :)
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    1. Obrigada Inês, é para nós um prazer saber isso! :)

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  3. Uau, nunca tinha pensado em metade dessas coisas.
    Acho que tenho de experimentar. Adorei.

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    1. Obrigada querida Diana! Aconselhamos vivamente, é uma diversão! :)

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  4. Olá
    A escrita e organização das ideias são exercícios diários e constantes...
    A sugestão do diário é muito interessante e gostei muito do diário de bordo. Tenho habito de escrever meus pensamentos e ideias, mas em lugares diferentes e muitas vezes se perdem no tempo.
    Muito bom o texto.

    Adriana Alves | Blog Viagens Sabores Etc.
    www.viagenssaboresetc.blogspot.com.br

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    1. Olá Adriana!
      Concordamos completamente! Como o corpo se torna mais flexível com exercício, também nós acreditamos que muito do "talento" para a escrita se desenvolve com a prática e dedicação regulares!
      Talvez esteja na altura de reunires todos os teus pensamentos num só lugar, até porque é um exercício muito libertador releres aquilo que pensaste em determinado momento... nem precisa passar muito tempo para termos uma perspetiva completamente diferente de um determinado acontecimento, e reler aquilo que foi a nossa posição face a alguma coisa, dá-nos pano para mangas de reflexões importantíssimas no nosso crescimento e descoberta!
      Beijinhos!

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