Sopa de Letras 3 | Com Raquel Dias da Silva

09 dezembro 2017


Queridos Palavreiros, estamos de volta para mais uma sopa de letras. Desta vez temos connosco a Raquel Dias da Silva, que nos irá falar, entre outras coisas, sobre a sua área do coração: a Ciência. Venham espreitar as palavras da Raquel! 



Olá Raquel! Em primeiro lugar gostaria de te agradecer por teres aceite este meu desafio. Pensar nesta rubrica do palavra-padrão sem pensar em ti não faria qualquer sentido! Talvez os palavreiros já estejam um pouquinho habituados à tua presença por estes lados, mas estão longe ainda de saber que surpresas reservas nessa tua vida sempre cheia de atividade e ideias novas! Sem mais demoras, vamos lá servir a tua sopa de letras!

1. Aqui nunca apresento ninguém, por isso que tal seres tu a fazer as honras? Quem é, aos teus olhos, a Raquel Dias da Silva? 

Um todo-o-terreno disfarçado de Smart [risos]. A falar a sério, vou sendo – uma amálgama de experiências que vivo e de vontades que tenho – e acredito que não acordo todos os dias a mesma pessoa. Mas, entre o que não me larga, conta-se o gosto por falar pelos cotovelos e a paixão pela escrita e pela fotografia. E, por outro lado, assim registado parece-me tão redutor. Olha, e se for como me apresento no currículo? 

Licenciada em Ciências da Comunicação – Jornalismo e a frequentar o mestrado em Comunicação de Ciência na FCSH/NOVA, gosto de observar, desmontar fenómenos e partilhá-los através de histórias. Apaixonada por jornalismo (sobretudo cultural, ambiental e de ciência), alimento-me do que me faz pensar – teatro, livros e outros quebra-cabeças – e do que me deixa sem palavras – natureza, gastronomia, música e a arte de fotografar. 

2. Para a sopa, cozinhei-te algumas palavras que vão ao encontro da ideia que tenho de ti. O que achas das minhas escolhas? Fazem sentido para ti, ou mudarias alguma coisa? 

Fazem todas sentido. Gosto de escrever desde miúda e desde miúda que o faço na blogosfera. Já perdi a conta aos inúmeros blogues que fui coleccionando, a maior parte agora privados, mas que fizeram parte, como os actuais fazem, do meu crescimento. Lá está, a aprendizagem.

Gosto muito de aprender. O mestrado em que estou foi resultado dessa vontade férrea que tenho em exercitar o cérebo. Queria fazer um mestrado numa área que me interessasse, mas que ao mesmo tempo fosse, de certa forma, um desafio para mim. Comunicação de ciência pareceu-me a melhor aposta. Curiosamente, foi assim que acabei por “encontrar” a natureza. 

Sempre fui mais de cidade, mas acabei por descobrir as maravilhas do ar livre, graças a uma incursão autodidacta pelo jornalismo ambiental. Agora digo que sim a tudo o que envolva relacionar-me com a natureza, como passeios micológicos, observação de aves, oficinas de engenharia natural, enfim, muitas actividades que podemos fazer em sítios como a Mata da Machada, no Barreiro.

Dinamismo e alegria estão sempre presentes, na maior parte do que faço. Faço muito pouco por frete, só mesmo o que é necessário para sobreviver, como tarefas domésticas, que acho que ninguém gosta de fazer. De resto, mesmo o que é trabalho, tem de me fazer feliz e de me fazer sentir dinâmica. Não gosto de estar parada – nem preciso de estar de pé, mas pelo menos a cabeça tem de estar a ginasticar. 

3.  Agora é a tua vez: se fosses feita de palavras, quais seriam elas? 

Uns amigos chamam-me, com carinho, catalisador social. Um catalisador é, em química, uma substância que aumenta a velocidade de uma reacção, sem ser consumido durante o processo. Parece-me cientificamente poético e, portanto, gosto de dizer que nasci para catalisar o que de melhor o mundo tem para oferecer – e o que de melhor tenho para lhe dar. Acho que é palavra-conceito que chegue.

4. Tens uma palavra desfavorita? Se sim, qual?

Não penso muito em palavras de que não gosto. Mas não gosto de todas as palavras que estão associadas a conceitos negativos, como mentira, perda ou traição. 

5. Uma imagem vale mesmo mais que mil palavras?

Uma imagem pode conter diferentes significados para diferentes pessoas – e, por isso, vale mesmo mais que mil palavras. Mas há palavras que, na falta de imagens e por que há quem não seja capaz de ver (metáforica e, ou literalmente), são o suficiente. 

6. Agora fala-nos de ti e dos teus múltiplos interesses. Segundo sei, padeces de um “mal” que é comum por estes lados: não consegues estar quieta! És ciência, banda-desenhada, leitura, fotografia, natureza, meditação/mindfulness… De onde foram surgindo esses interesses todos e de que forma consegues arranjar tempo para todos? E há mais dos quais eu não tenha conhecimento? 

Sou curiosa por natureza. Gosto de explorar. Há muito pouco que não me capte a atenção. Tenho antenas, como se costuma dizer. Primeiro, a leitura, porque leio desde pequena e muito do que leio tem levado a outros interesses. Actualmente leio muitos livros do género popular science (ciência para leigos) e de banda desenhada. Mas também gosto muito de poesia, de biografias e, no geral, de romances.

O gosto pela ciência existe desde miúda, altura em que quis ser, em vez de só médica, cirurgiã plástica reconstrutiva. Sim, era assim que respondia à pergunta do “o que queres ser quando fores grande?” Agora que sou grande, e tendo seguido uma ciência diferente, a de comunicar, faz sentido para mim retomar esse sonho de miúda de uma outra forma –  e que, para dizer a verdade, encaixa muito melhor no meu feitio. Quanto à banda desenhada, descobri o género no secundário, com a leitura do Persépolis, de Marjane Satrapi (que o meu professor de história me emprestou), mas o vício só começou na universidade, quando fui ao AmadoraBD como redactora do Espalha-Factos. Entretanto, descobri a série Saga, publicada em Portugal pela G. Floy Studio, e depois nunca mais parei de explorar o género.

Da natureza já falei. O mindfulness está a começar a fazer parte do meu dia-a-dia, mas muito devagar. Porque, lá está, é-me muito difícil parar, o que me leva à pergunta do tempo, e a verdade é que não tenho tempo para todos os meus interesses todos os dias. Há dias em que só tenho tempo para metade. É mentira quando se diz que se tem tempo para tudo ou quando se diz que não se tem tempo para nada. O truque é garantir que, não descurando o que temos mesmo de fazer, gastemos mais tempo no que nos aquece o coração do que nos compromissos chatos do dia-a-dia. 

Por exemplo, actualmente passo a semana em estágio, mas estou a escrever, o que à partida me faz feliz, porque faz parte dos meus interesses. O que acontece é que, de segunda a sexta, não me resta muito tempo para fazer outras actividades que também me fazem feliz, porque chego a casa duas horas depois de sair do trabalho e, para além de ter de jantar, estou cansada. Normalmente edito artigos do Espalha-Factos, ou escrevo para os meus blogues, ou leio um bocadinho, ou vejo uma série, que são actividades que também pratico no fim-de-semana. Mas como é óbvio não faço tudo todos os dias e às vezes chego frustrada ao fim do dia com a sensação que não tive tempo para tudo o que queria fazer. Por exemplo, tenho umas fotografias para editar, que são mais ou menos trabalho, mas que são o registo do lançamento da Right Buddy, e por isso significam muito para mim, mas não tenho conseguido editar, ou porque chego ao fim do dia demasiado cansada ou porque ando com o tempo ocupado com outros compromissos, alguns pessoais, que me têm impedido de terminar essa tarefa em específico. Não tenho uma receita, portanto.

7. Gostava que partilhasses com os palavreiros a tua experiência com o Meek Sheep e o Supernova! São blogs tão diferentes, mas no fundo tão harmoniosos, com a tua vontade de aprender e partilhar o que sabes! Fala-nos mais sobre eles!

O Meek Sheep é uma extensão de quem sou, porque tanto escrevo sobre livros como sobre roupa, filmes, meditação ou o que me apetecer. 

O Supernova nasceu como elemento de avaliação para um seminário do mestrado mas não morreu quando recebi a nota. É um blogue que fala sobre ciência de uma forma simples (para que toda a gente possa entender) e, espero, interessante (para que toda a gente possa achar “uau, afinal a ciência é fixe, não é só para génios”). Por outro lado, também abordo a relação da arte com a ciência e tenho uma rubrica dedicada a mulheres que desenvolvem ou já desenvolveram actividade científica. 

Só lamento não conseguir alimentá-los tanto quanto gostaria, mas gosto de acreditar que compenso a pouca frequência de publicação com a crescente qualidade dos artigos. 

8. Há uma pergunta - que nem é bem uma pergunta, mais uma reflexão que gostaria de partilhar contigo e saber o que tens a dizer sobre isso - que me está aqui na ponta da língua. Tens um blog sobre ciência, coisa que não é muito comum, e que desmistifica um bocadinho aquela ideia que a ciência é coisa de meia dúzia de académicos sabichões metidos num laboratório. É fácil fazer chegar a ciência ao público leigo nessas matérias (eu incluída)? Há espaço, e acredito nisso por ser um bocadinho como a minha área de eleição, a Arte, para trocar por miúdos uma coisa que parece ser um bicho de sete cabeças?

Não acho que seja fácil fazer chegar a ciência ao público, mas não porque o público não se interessa ou não percebe e mais porque tem de se perceber muito bem sobre o que se está a tentar explicar para se explicar bem. Por isso é que tenho uma admiração enorme pelo bom jornalismo de ciência (feito por jornalistas como a Teresa Firmino, do Público, por exemplo, ou, no caso do jornalismo ambiental em específico, pelas fundadoras da Wilder Magazine) que, mais do que comunicar ciência, explica a ciência e abre o espaço de debate sobre essa ciência. 

De qualquer modo, embora não seja tão difícil como se possa pensar, não é um hábito de leitura que o público tenha, o que é reflexo da pouca aposta no jornalismo de ciência. Uma secção de ciência num jornal português tem menos pessoas do que uma secção de política ou economia e, há redacções em que quem escreve sobre ciência também escreve sobre outras coisas. Não preciso de explicar o que isto significa, porque acho que toda a gente percebe. Agora, é óbvio que acredito que há espaço para trocar por miúdos uma coisa que parece ser um bicho de sete-cabeças, mesmo quando estamos a falar sobre áreas tão complicadas como a física ou a génetica. 

9. Pelo que sei, a Ciência está repleta de padrões, consegues pensar num favorito?

Os padrões explosivos das Supernovas e o que resta delas. Uma Supernova é um evento astronómico caracterizado por uma explosão muito brilhante, que ocorre durante os estágios finais de algumas estrelas, e que por um curto espaço de tempo causa um efeito semelhante ao surgimento de uma nova estrela. Em apenas alguns dias, o brilho pode intensificar-se de tal forma que a estrela se torna tão brilhante quanto uma galáxia. 



Fonte: https://apod.nasa.gov/apod/image/0506/casa_spitzer_big.jpg

10. E agora, como é costume nesta rubrica, chegou a hora da história. Peço-te que partilhes connosco um momento, uma memória, uma história tua ou de qualquer outra pessoa que te tenha marcado e que aches que possa vir a transmitir um sentimento positivo a quem ler isto.

A minha mãe não foi para a universidade com a minha idade, tirou um curso profissional em desenho projectista de metalo-mecânica e, depois do estágio, nunca mais trabalhou na área, tendo trabalhado em muitos outros sítios, mas sobretudo em hotelaria. Quando entrei no secundário, ela decidiu que queria entrar no ensino superior e, aos quarenta anos, começou a estudar psicologia. Agora é psicóloga clínica e da saúde. E o que é que importa? Importa dizer que é sempre tempo. É sempre tempo de seguirmos os nossos sonhos, de aprendermos mais, de mudarmos de rumo na vida. As paredes são portas e janelas à espera de ser construídas. Ou armários para Nárnia, nunca se sabe.

11. Para terminar, com uma pergunta a mais do que é habitual, como já disse nas edições anteriores, acredito que se conhece muito sobre as pessoas pelas perguntas que fazem, mais até do que pelas respostas que dão. Por isso lanço-te o desafio de refletires numa questão à qual gostarias de ter resposta, seja lá sobre o que for, mas uma inquietação sobre o mundo ou sobre a vida que te surja em forma de pergunta, e que gostasses que ficasse a encerrar esta nossa conversa escrita.

Quando é que vamos receber uma visita de extraterrestres?

E pronto, terminamos! Obrigada  por teres aceite participar nesta pequena brincadeira e espero que te tenhas divertido!!! :) 


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