ACMA | Tradição é tradição 3/3

03 abril 2018

O guarda-jóias da menina Sofia é o palco desta história que criámos em resposta ao segundo desafio do ACMA || A CULTURA MORA AQUI em 2018, com o tema "Tradições". É difícil resistir à florescente Shelly e os seus brilhantes companheiros de aventuras, por isso desejamos apenas que se divirtam tanto a ler este pequeno conto como nós nos divertimos a escrevê-lo! 

Esta é a terceira de três partes do conto "O guarda-jóias". Podem ler aqui as anteriores: 

Boas leituras!

Capítulo 3 |

— Rápido! Toda a gente a emaranhar-se uns nos outros! Eles vão abrir a caixa. — Grita o porteiro do guarda-jóias, enquanto todos se abraçam uns aos outros, sobretudo os colares, de forma a que quando tentarem tirar um, várias peças vão agarradas. É meio que uma cena nossa...e dos auriculares. 
— Sofia, querida, mexeu no guarda-jóias? Não entendo, ainda há uns meses o organizei todo e já está caótico! Que acha da ideia de levar os brincos que o Sérgio lhe deu no São Valentim? 
A Sofia aproxima-se do guarda-jóias e um suspiro de aprovação e orgulho percorre a plateia. Mesmo o conselho, para quem o vestido é simplório, sem o glamour das rendas, não consegue ficar indiferente à sua presença doce e luminosa. 
— Mãe… sobre isso… eu acho que temos de falar e…
Estamos tão chocados que ninguém se atreve a falar, mesmo sabendo que os humanos não nos ouvem. Como assim as nomeações do conselho falharam? Isto nunca aconteceu! 
— Eu estava a pensar não levar jóias. 
O tilintar da Sra. Elisabete a desmaiar passou despercebido à dona da casa porque ela própria está pálida e com aspeto de quem vai desfalecer a qualquer momento. Ao contrário do silêncio que se instala no quarto, dentro do guarda-jóias o barulho é ensurdecedor. Alguns dos novatos choram, incluindo o grupo mais recente, um daqueles conjuntos de anéis pequeninos que ficam a meio dos dedos. O conselho está a reunir de urgência, até em frente aos novatos, e o porteiro tenta reanimar a Sra. Elisabete. 
— Sofia. — Uma gargalhada brota-lhe dos lábios enrugados. — Seja razoável… É normal sentir-se confusa no dia de hoje, todas sentimos. Agora vá, a tiara nem se discute...mas talvez este para uma coisa azul? Era da sua tia avó Magda...
Estende a mão para o Roberto quando a Sofia a detém. O barulho do guarda-jóias cessa de repente, dando lugar a um silêncio sepulcral.
— Mãe, por favor, pode ouvir-me só desta vez? Isto não tem nada que ver comigo, nem com o Sérgio. A mãe sabe que eu não gosto destas coisas, que não sou de brilhos nem enfeites… por que haveria de usá-los no dia em que me vou unir à pessoa que sempre me amou sem isso? Eu quero que este dia reflita aquilo que ambos somos, enquanto pessoas e enquanto casal. E definitivamente eu não sou... isto. — Pegou com desdém na Sra. Elisabete, que acabara de abrir os olhos para logo os fechar outra vez. 
As damas de honor, a madrinha e a algumas tias abandonam o quarto, dando privacidade às duas. Quanto a nós, não ousamos nem respirar. 
— Sofia, isto é inaceitável… ninguém da nossa família… não, não é possível, tratam-se de tradições centenárias! Não pode simplesmente virar as costas a anos e anos de história! A sua tia Lucinda não vai aguentar… — A velha senhora levou as mãos à cabeça e sentou-se na beira da cama. A Sofia sentou-se ao seu lado e tomou-lhe as mãos entre as suas. Aposto que, como eu, todos os anéis do guarda-jóias sentiram uma vontade esmagadora de estar a adornar as suas mãos neste momento. 
— Mãe, as tradições são importantes, e reconhecer as nossas origens é fundamental, mas eu acho que, acima de tudo, temos de nos manter fiéis a nós mesmos. Não repetir um gesto que não me diz nada não quer dizer que eu não respeite ou desvalorize a nossa família. Pelo contrário, acho que podemos reinventar as tradições e moldá-las ao que é realmente significativo para nós… 
A Sra. Laura ergueu o olhar para a filha, fitando-a sem compreender.
— Pensei em levar uma coroa de folhas de Oliveira, em honra das avós. — Explicou, sorrindo timidamente. — E sim, uma coisa nova, velha, emprestada e azul… mas que me diga algo, a mim e à pessoa a quem me vou juntar...
Demorei uns segundos a perceber o que estava a acontecer. Já não saía do guarda-jóias há tantos anos que fiquei tonta ao ser levantada. Ela colocou-me cuidadosamente no dedo, que, embora mais gordinho, ainda tem a mesma sensação que tinha em criança. Ignoro o chinfrim do guarda-jóias e os olhares de surpresa da D. Laura, e aproveito o momento delicioso de felicidade. Fui eu, eu fui a escolhida, euzinha, plástico descolorado, golfinho pindérico, grátis com a super pop… Ela escolheu-me a mim, e podem vir mais cem anos de tradições que este momento já ninguém mo tira! 
— É uma coisa nova, porque...bem, porque é jovem, certo?! É um anel de criança! E é velha porque já tem vários anos, certo?
— Oh Sofia… Francamente. 
— É claramente azul e...bem, não é emprestada. 
— Ai isso é que é! — A voz da Gusta anuncia a sua presença e só me apetece chorar de felicidade, mas quero garantir que não descasco a pintura no meu maior momento de glória. 
— Mas será que está tudo maluco?! — A D. Laura anda de um lado para o outro do quatro, possessa, e um olhar rápido em direção ao guarda-jóias comprova que por lá a situação não está muito melhor. 
— Esse anel era meu. — Explica a Gusta, abraçando a futura cunhada. — Parece que estão reunidas as condições para se manter a tradição... Agora tenho de ir ajudar o meu irmão. Garante que ele não te vê! Olha a tradição! 
 Mal ela sai, a Sofia leva-nos até junto da mãe, que mantém o olhar fixo na janela. Lá em baixo, os convidados já ocupam os seus lugares no jardim maravilhosamente decorado para o grande dia e o ambiente é descontraído e luminoso, mesmo ao estilo dos noivos.
— A maior tradição desta família é sermos todos muito felizes. Prometo fazer o meu melhor para não falhar nessa parte.
A velha senhora abraça a filha, comovida, e choramos as três de alegria. Depois a Sofia destapa uma pequena caixa de papel e retira de lá uma coroa de folhas de Oliveira. Com cuidado, a mãe entrança-lhe o cabelo e coloca a coroa no final, deixando uma pequena mecha de cabelo solta.
— Está tão brilhante como se estivesse a usar uma tiara, querida filha.
A tampa do guarda-jóias bate inesperadamente, e elas encolhem os ombros, julgando tê-la deixado semi-aberta. Quando a mim, tenho pena que dispensem ver-me a desfilar pelo quarto, com o meu golfinho a reboque. De qualquer das formas vou garantir que mais tarde lhes conto todos os pormenores deste dia. Todos mesmo. Várias vezes…vou falar tanto disto que até na Parfois vão ouvir falar de mim, e talvez até lancem uma linha com golfinhos...
— Sofia, venha, vai chegar atrasada! 
A minha Sofia corre para a porta, segurando o vestido, e grita à saída:
— Oh mãe, não tem mal, é tradição! 


Sobre o projeto A Cultura Mora Aqui

Criado pela Ju, do blog Cor Sem Fim, o projeto A Cultura Mora Aqui - ou ACMA, para abreviar - tenciona trazer a cultura de volta à internet com temas mensais ou bimestrais. Para participarem, só têm de enviar um e-mail com os vossos dados para acma.cultura@gmail.com - não vamos falar sobre outfits, maquilhagem, moda, etc, e qualquer um de vós pode participar, não sendo obrigatório fazê-lo todos os meses. Para não perderem nenhum post, já podem seguir a página do ACMA no facebook e a Revista.

12 comentários:

  1. Esta história é maravilhosa! Está mesmo original, fizeram um excelente trabalho *.*

    Repitam mais vezes este registo, pf

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  2. COMO É QUE EU NÃO TINHA VISTO ISTO?! Que ideia brilhante, vocês são os reis das boas ideias! Vou ler tudo :D

    Jiji

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  3. É sempre maravilhoso ler o que escreves.

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  4. "A maior tradição desta família é sermos todos muito felizes. Prometo fazer o meu melhor para não falhar nessa parte." <3
    Que lindo texto e que bela maneira de terminar, acho que esta citação caracteriza muito bem esta história que vocês contaram =)

    MRS. MARGOT

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  5. Adorei este capítulo final, tão bem escrito. Fiquei presa do inicio ao fim.

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  6. Adorei ler esta maravilhosa história.
    Bom fim de semana
    Bjs

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  7. Chorei! Não estava nada á espera deste final, adorei mesmo!

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    1. Aliás guardei nos favoritos do PC para poder ler quando quiser. :)

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  8. Que história maravilhosa
    http://retromaggie.blogspot.pt

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