e-conversa 4 | Reflexão sobre a fotografia mobile e analógica

28 setembro 2018

Pensar a Fotografia foi o mote para a quarta edição das e-conversas do Palavra-padrão, que contou com a feliz participação de três convidadas com olho para a coisa. Venham daí revelar o resultado desta nossa tertúlia online! 
O número limitado de fotografias, os prazos expirados dos rolos que levavam a efeitos psicadélicos e a alegria genuína de pegar num montinho de fotografias acabadas de revelar, embora não sejam realidades muito distantes no tempo, parecem a anos luz do ato naturalizado de disparar o flash do smartphone. Se é certo que não tem tanta mística, também o é que a Fotografia está hoje muito mais democratizada e ao alcance de qualquer um. Teremos perdido a magia pelo caminho? O que define um fotógrafo? O que distingue o processo criativo do método digital e analógico? 

Para acalmar a nossa curiosidade em relação a estas e outras questões, trouxemos para o nosso café virtual três convidadas bem especiais:


 Ana Cláudia Silva

Licenciada em Estudos Artísticos, na variante de Artes do Espectáculo, a Ana é natural do Barreiro e vive atualmente no Porto. Fotografa desde 2014, altura em que lhe ofereceram uma máquina analógica que transporta consigo para todo o lado. É essa a ferramenta de destaque do projeto que nos levou até ela, o Caminhos de ser Feliz, onde regista a sua visão do mundo através da lente da sua Pentax K1000. 

Manuela Matos Monteiro


Tem 68 anos e é natural do Porto/Paranhos. Formada em Filosofia e Psicologia, dedicou-se com paixão ao ensino durante vários anos. O interesse e curiosidade pela fotografia apareceu desde cedo na sua vida e culminou na criação e direção do projeto que abraça desde 2013, as Galerias MIRA - Espaço MIRA, MIRA FORUM e MIRA | artes performativas. Começou na fotografia analógica, mas rapidamente se deixou encantar pela fotografia mobile, tendo já obtido prémios e avaliado concursos internacionais na área.
Nisa Oliveira 

A Nisa é de Vila Nova de Gaia e tivemos conhecimento do trabalho dela através do instagram. Nas suas palavras, "a fotografia surgiu da necessidade de criar uma extensão de mim mesma. É um olhar quase que obrigatório para as coisas bonitas que nos rodeiam, sendo o Instagram a montra desta catarse.  É tudo, fotografia e edição, exclusivamente mobile."

Muito embora tenham tido experiências diferentes no que diz respeito à descoberta da fotografia, a Manuela e a Ana começam por tocar no ponto que dá o pontapé de saída para a discussão: a acessibilidade à fotografia analógica.





Os rolos, os líquidos, o papel, as próprias máquinas, implicavam investimentos que nem todos podiam comportar, e muitas eram as manhas usadas para contornar os gastos excessivos associados a esta prática. 

"Procurávamos no Fraga - grande casa de fotografia na rua do Bonjardim em frente à Regaleira - rolos, papel e líquidos fora de prazo para serem mais baratos ..." (Manuela)








O digital vem facilitar o acesso generalizado à arte de fotografar e contribui para democratizar uma prática que outrora bem mais restrita, que implicava não só poder económico, mas também tempo para despender nos elaborados processos de fotografar/revelar. A acessibilidade a dispositivos digitais, aliada à sua simplicidade técnica e ao imediatismo do ato de registar a realidade, levaram a que se abrisse o leque de pessoas predispostas a arriscar explorar esta prática. Para a Nisa, o Instagram simboliza o culminar desse processo de abertura, ao permitir a partilha infinita de visões do mundo. 

 






Ainda assim, destaca a Ana, não se trata de uma substituição de uma modalidade por outra, mas sim da co-habitação de diferentes formas de fotografar.


A combinação das potencialidades de uma e outra modalidade só poderá trazer benefícios para os que desejam explorar e conhecer mais sobre fotografia. 


No entanto, como todas as mudanças, a emergência do mobile veio associada a alguma resistência. A Manuela recorda-nos como os fotógrafos da velha-guarda viam esta modalidade com desconfiança:

"A reação da maioria dos fotógrafos na época foi de rejeição, criando um elaborado discurso para justificar o conservadorismo que não admitiam." (Manuela)
Na esteira da resistência a esta prática por parte dos fotógrafos analógicos, surgiu-nos a questão: poderá também a fotografia mobile ser considerada uma arte? 

Como qualquer arte, cabe a cada um definir as regras do jogo. A fotografia é um campo em aberto e basta ter vontade de brincar: mais ou menos edição, fotografias capturadas com ou sem intenção (registos no interior de autocarros em movimento, experiências de olhos fechados), em formato mobile ou analógico, com ou mais conhecimento técnico, a fotografia é todo um universo que cabe a cada um explorar da forma que achar mais desafiante, curiosa e divertida. 






Mas será que qualquer um pode ser fotógrafo? O que tem mais peso, a formação, a prática ou o talento?

Se o ato de fotografar fosse:

Esperamos que tenham gostado desta e-conversa! 
Podem consultar aqui as edições anteriores:

4 comentários:

  1. Fico sempre maravilhada a ler estas e-conversas, mas tenho que admitir que esta me tocou ainda mais. Adoro fotografia, por isso, ter a oportunidade de mergulhar neste mundo tão mágico, através de realidades tão diversas e plurais é maravilhoso!
    Continuem *-*

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  2. As melhores imagens que tirei na vida foi com uma zenit,
    que tenho até hoje o problema é que demora mais ou menos
    uns 20 min pra deixar tudo nos conformes e pesa um tijolo maciço!
    Mas adoro.
    Adorei a partilha.
    Bom começo de mês de outubro, lembrando que todo o dia primeiro
    de cada mês tem post novo lá na casa.

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  3. Obrigada pelas palavras deixadas no meu "Ortografia". Passarei aqui outras vezes.
    Um bom fim de semana.
    Beijos.

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