Quem tem medo da Arte Contemporânea?

12 janeiro 2019

"Ai isso não é para mim!"; "Não percebo nada de Arte"; "Até o meu filho fazia melhor"... Vamos falar sobre a Arte Contemporânea?

Levantem o dedo se alguma vez já disseram "Não percebo nada disto", "Até uma criança fazia melhor", ou "Para que caraças é que isto serve?" num contexto de um museu, especialmente de Arte mais conceptual. Ora bem, a Arte Contemporânea é percepcionada por uma grande parte das pessoas como um monstro de sete cabeças: inacessível, incompreensível, inútil e objeto acarinhado por um grupo reduzido de finórios que ainda parecem perceber alguma coisa daquilo. Por isso é, muitas vezes, alvo de duras críticas de quem nem sequer provou e já está a por na beira do prato. Se é o teu caso, pensa que, como na comida, podes estar a perder uma experiência que te saberia pela vida.
Londres - Tate Modern - 2014


Penso que não é possível chegar a um consenso no que toca à definição do que é a Arte, ou do que é a Arte Contemporânea, mas há algo que é seguro afirmar com alguma certeza: é, sobretudo, comunicação. 
De um lado, temos o que o Artista quer dizer, a mensagem que pretende passar, e do outro, temos aquilo que os públicos lêem, a mensagem entendida por quem observa. Como em qualquer conversa, a essência da mensagem não está só do lado de quem fala, nem só do lado de quem ouve, mas sim na junção entre estas duas "vozes", no meio do caminho entre o que é dito e o que é entendido. E o segredo está na ponte, mas já lá chegaremos. 

Já falámos aqui antes sobre a nossa única verdade neste blog: todos, TODOS mesmo, são capazes de criar e ninguém nasce ensinado. Ninguém foi abençoado com uma varinha mágica da criação, com uns pózinhos de perlimpimpim que fizeram com que, logo assim saído do útero, fosse já capaz de tocar uma sinfonia do Mozart em Harpa, com a ponta do nariz. Acreditamos que esta ideia não só se aplica à criação de Arte, mas também à sua "recepção", isto é, quando estamos do lado de lá, como num museu.  

Serralves em Festa - 2016

 Não sabemos fazer contas sem que ninguém nos ensine, não sabemos cozinhar sem aprender primeiro, não sabemos ler, se não formos instruídos a ligar as letras entre si, e ninguém que gosta de Arte foi posto no mundo já a saber apreciar quadros, ou uma peça de teatro, ou uma instalação toda futurista. 

Se ninguém nos despertar a curiosidade por espreitar um museu, nós vamos crescer a interiorizar a ideia de quem não percebemos nada de museus, e mais, vamos sentir-nos desconfortáveis e deslocados lá dentro. Vamos dizer "isto não é para mim" e acreditar que não percebemos o que ali está "escrito", porque ninguém, em nenhum momento, nos ensinou a juntar as letras de um quadro. 
Para algumas pessoas é mais fácil, já que se habituaram desde cedo a praticar a "leitura". No fundo, um bocadinho como quem vai ao ginásio pela primeira vez e vê alguém a treinar com grande à vontade. Mas por que é que achamos isso natural no ginásio, e pensamos que se treinarmos, chegaremos lá também, e não temos a mesma posição em relação a ir a um museu? 

Esta é fácil, porque crescemos a ouvir falar da Arte como uma coisa de outro mundo, uma questão de "talento", de "sensibilidade", de "jeito", destinada aqueles que já nasceram com isso, em vez de pensarmos nela como uma qualquer outra coisa que implica tão só experimentar, perder um bocadinho de tempo a estar, a olhar, e a aproveitar. 

 Rijksmuseum - Amesterdão 2017

Quantos de nós não se divertiam à brava a "ler" livros ainda antes ainda de sabermos ler? Usávamos as pistas que tínhamos e adivinhávamos o resto. E fazia sentido, não?
Quantos mais museus visitamos, quanto mais vemos e mergulhamos na Arte, mais pistas vamos tendo, mais letras vamos juntando, e quando damos por ela, estamos a "ler" um quadro. À nossa maneira, sempre é nossa maneira.
E daí poderemos retirar  coisas maravilhosas, como quando provamos coisas que não conhecemos e afinal, até gostamos... 

Serralves em Festa 2018

Mas falávamos nas pontes, não era? O que está no meio dos artistas e dos públicos?
Os tais que não só têm a possibilidade como o dever de abrirem as portas da Arte a todos, para que qualquer um de nós sinta que pode estar ali, que há lugar para qualquer um, independentemente de praticar ou não a "leitura". No ginásio, temos os que estão a começar no Cardio e os que já desbundam. Temos os que levantam o seu próprio peso e os que ainda só estão na fase de tirar selfies à chegada... e tudo bem. É bom. É sinal que cabemos todos lá dentro.
A Arte, e a Contemporânea também, deve ser assim: abrir espaço para os curiosos que só querem espreitar, para os interessados que querem aprender a ler, para os especialistas que já levantam pesos.

Para isso, é fundamental que os chamados intermediários culturais, aka, os construtores das pontes - galeristas, programadores culturais, curadores (aqueles que montam as exposições), assistentes de galeria, gestores culturais, etc) - se juntem no sentido de abrir o caminho da leitura, sem nunca condicionar a nossa própria interpretação!
Mais do que traduzir a mensagem do artista, o papel destes deve ser fazer a ligação entre os artistas e o público, facilitando o diálogo entre as partes.

Exemplos de sucesso são os dias de Serralves em Festa, onde há espaço para brincar, aprender, experimentar, espreitar e entender... Debates e conversas entre artistas e públicos no final das exposições (ou a passagem de documentários); a revelação do processo de construção da obra; as visitas guiadas e atividades ligadas aos serviços educativos dos museus; legendas colocadas ao lado das obras, com notas sobre a intenção do artista; as visitas interativas através da Internet; há tanto que se pode fazer! 

Serralves em Festa 2018

E as pontes não terminam aqui. É papel do governo, da escola, dos orgãos de poder local, da própria família, dar o pontapé de saída. Ir ao museu. Visitar uma exposição. Ter tintas em casa. Não terminar com as aulas de expressão plástica na primária para se dar mais destaque à matemática, porque tudo é necessário...

A Arte é um mundo incrível no momento em que nos atrevemos a passar a barreira do desconforto daquilo que ainda não provamos...

Londres - Tate Modern 2014



Daniela. 

4 comentários:

  1. Confesso que não sou a pessoa que mais visita museus, no entanto, acho que é um mundo super interessante, desafiante e bonito de se ver. A minha opinião é que, tal como dizes, aprendemos a observar com o tempo, porque ninguém nasce ensinado. E outra característica que considero incrível no que toca a isto da arte é o facto de eu observar e interpretar de uma forma absolutamente diferente da tua.
    E essas pontes são essenciais!
    Beijinho

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  2. A arte é tão plural, tem tantas formas de se manifestar, que se torna bela por isso mesmo. Acho que nos fechamos à arte contemporânea porque, inconscientemente, parece que procuramos guiões que nos mostrem o que é suposto encontrar. Mas a questão é que a interpretação é sempre diferente e não há um sentido único. O artista tem a sua mensagem, que podemos captar a fundo ou passar ao lado, mas aquilo que o seu trabalho nos provoca também deve ser tido em conta.
    Contra mim falo, que não frequento tantos museu quanto gostaria, mas só vivemos no escuro se, efetivamente, não treinarmos o nosso olhar para observar.

    Excelente publicação *-*

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  3. Tenho que confessar que não sou grande fã.
    Bjs, boa semana

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  4. Gostei da tua interpretação / explicação sobre arte contemporânea.
    Não sou consumidora assídua desse tipo de arte. Acho que é uma questão cultural de que padece grande parte da população portuguesa.
    O facto dela se encontrar centralizada nas grandes cidades também não ajuda.
    O teu texto é um excelente exercício para experimentar.
    Beijinho

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